Gabriel, o garoto que a vida ensinou a persistir, sobreviver e vencer

0
1406
Gabriel começou hoje a disputa por mais um título estadual nos Parajasc (Foto: Heron Queiroz)

Por Heron Queiroz

     Histórias de superação, num evento como os Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina, é coisa que não falta. Aliás, os Parajasc, por sua essência, são um projeto que simboliza superação de cada atleta. E foi na cancha de bocha paralímpica que encontramos um desses bons exemplos.  Trata-se de Gabriel Rodrigues de Andrade, 19 anos, atleta de classificação BC2, natural de Balneário Camboriú.

     A carreira de jogador de bocha paralímpica começou há oito anos, quando, em novembro de 2010, os pais, Jusceli e Adilson de Andrade, foram a Joinville para a compra de uma cadeira de rodas. Lá, foram informados pela dona da loja de que havia uma competição de bocha paralímpica, no Bairro da Barra, em Balneário Camboriú.

     Como os pais já viviam no meio esportivo, já que locavam cancha para futebol sete, sabiam que a prática esportiva seria muito importante para Gabriel. E, embora não conhecessem a bocha paralímpica, levaram-no para participar da competição. Não foi uma expressiva derrota que o fez desistir. Afinal “desistência” é uma palavra que naturalmente não faz parte do vocabulário de Gabriel.

     Gabriel nasceu com paralisia cerebral devido a um parto complicado. Jusceli e Adilson ouviram da enfermeira que o filho era um “vegetal”. Foi-lhe dado 1% de chance de vida. O período pós-parto manteve Gabriel em coma induzido por 60 dias, no Hospital Santa Inês, em Balneário Camboriú. A mãe explicou que, depois de implantar uma válvula, houve rejeição, e que a substituição por uma segunda válvula resistiu apenas dois anos, até implantarem uma terceira.

     Depois disso, Gabriel parecia evoluir. Aos cinco anos,quando  já tentava caminhar, teve uma piora, e o diagnóstico veio somente aos 10 anos de idade: síndrome de medula presa. Gabriel precisava passar por uma cirurgia de risco, à qual não havia garantia de sobrevivência. Sabia-se ainda que pudesse haver sequelas. Depois da cirurgia, ele passou a ter dificuldades também de movimentação nos membros superiores. Com fisioterapia outros tratamentos.

     Em 2011, passou a treinar na Associação de Apoio às Famílias de Deficientes Físicos (Afadefi). Nesse mesmo ano, já foi vice-campeão dos Parajesc e campeão nas Paralimpíadas Escolares, em São Paulo. E não parou mais por aí. Foram, até aqui, quatro títulos nas Paralimpíadas Escolares e um bronze nas cinco participações. Nos Parajesc, foram dois títulos de campeão, dois vices e um terceiro lugar.

     Gabriel também já representou o Brasil na seleção sub-21, durante os Jogos Parapan-Americanos de Jovens, que aconteceram em São Paulo. Neste ano, ficou em segundo lugar no regional do Campeonato Brasileiro, classificando-se para a competição  nacional nos pares e equipes e no  individual.

     Jusceli e Adilson o acompanham por diversos eventos de que ele participa ou até mesmo para assistir, como os Jogos Paralímpicos do Rio. Mas nem para tudo precisam acompanhar, pois Gabriel já possui alguma autonomia. Pega táxi, faz compras e, vaidoso que é, vai ao barbeiro e também faz limpeza de pele.

     “Se ele fosse perfeito, não seria tão perfeito”, disse o Adilson cheio de orgulho. “Por onde passa, ele brilha” completou Jusceli igualmente orgulhosa. Os pais atribuem o desenvolvimento de Gabriel, além do amor no convívio com a família e amigos, também à Escola Quintal Mágico, de método construtivista, onde ele estudou até os 11 anos de idade. Atualmente, em função do calendário esportivo, faz curso à distância e também recebe aulas em casa.

     A dedicação da família é tanta, que Adilson adaptou um cômodo para os treinos de Gabriel, espaço este que passou a ser chamado pelos amigos que também vão para lá treinar e jogar como CT do Gabriel. “Para nós, tudo que representa o Gabriel é o sentimento de superação. Com ele nós passamos a ver a vida de forma diferente, ficamos melhores”, completou a mãe.

Foi adaptado um cômodo na casa para Gabriel treinar e jogar co amigos (foto: arquivo familiar)

Depois de sete anos treinando e competindo por Balneário Camboriú, Gabriel diz querer novos ares e passou a treinar e competir pela cidade vizinha, Itajaí.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here